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Revista do Servidor - Destaque

Aprimoramento profissional no serviço público

Publicado em 05/05/2008 - 08:50


Em razão do Dia do Trabalhador, preparamos uma entrevista especial com um tema de grande importância para os trabalhadores lotados no serviço público: o aprimoramento profissional. Conversamos com Alex Cavalcante Alves, publicitário e servidor público concursado do Ministério das Relações Exteriores, atuando na assessoria parlamentar e federativa desse órgão. Ele ainda mantém um site (www.blogdoalexalves.com.br), destinado a debater o uso de melhores práticas na administração pública.

 

RS: Há um senso comum que diz: “Servidor público concursado, devido à estabilidade, se acomoda”. O que você pensa disso?


Alex Alves: Acredito que a estabilidade é uma garantia que foi pensada justamente para dar maior liberdade ao servidor para cumprir bem o seu papel. Ela nos dá a obrigação de realizar tudo conforme a lei e dentro de preceitos éticos, sem medo de sanções ou represálias por conta de possíveis interesses dos superiores, que muitas vezes ocupam cargos políticos. Quando se misturam interesses políticos e questões de Estado, o que deve prevalecer é o interesse do Estado. Daí a necessidade de o servidor possuir autonomia para fazer o melhor para o País, independentemente de qualquer orientação política. A estabilidade em si é positiva para as instituições em geral.

 

RS: Mas o estereótipo de acomodação existe.

Alex Alves: A acomodação pode acontecer em qualquer emprego e tem a ver com uma combinação de fatores, entre os quais a própria personalidade do indivíduo, que pode ser mais resistente a mudanças que os demais, as condições de aperfeiçoamento que lhe são (ou não) oferecidas no trabalho e a possível inadequação do perfil daquele servidor à função. O servidor também tem a sua responsabilidade e deve sempre lembrar que é pago pelo Estado para prestar um serviço de qualidade.

Apenas para complementar, vale dizer que a estabilidade é algo visto como positivo não só pelos servidores. Basta observar que as entidades sindicais da iniciativa privada nesse momento também buscam maior estabilidade nas relações de trabalho, realizando intensa movimentação política pela aprovação da Convenção 158, da OIT, que tramita na Câmara como Mensagem (MSC) nº 59, de 2008. Essa convenção, se adotada pelo Brasil, tornaria as relações de emprego mais duradouras, com o fim da demissão sem justa causa. Sem dúvida o debate que envolve empregados, empregadores e sociedade ainda será bastante extenso.

 

RS: Como o servidor pode fazer para se manter atualizado e continuamente se aprimorar profissionalmente?

Alex Alves: Acredito que a leitura e a continuidade da vida acadêmica são fundamentais. Buscar a primeira graduação ou uma segunda, para os que já possuem nível superior, ou ainda pós-graduações são excelentes formas de aprimoramento. Além disso, há vários cursos de aperfeiçoamento voltados para o setor público. O ILB, órgão do Senado Federal, oferece alguns cursos gratuitos à distância. Tudo isso serve para oxigenar e ampliar os conhecimentos do servidor. No caso de cursos presenciais, como a maioria dos de graduação, o fato de conviver com os colegas de estudo também auxiliará o servidor no desempenho de suas funções, permitindo que ele esteja atento ao que ocorre com o público fora do órgão e, por conseqüência, mais antenado com a população, que é o verdadeiro cliente dos serviços prestados pela administração pública.

 

RS: O estímulo ao constante aprimoramento vem de onde: do servidor (por seu comprometimento e anseio profissional) ou da instituição (com incentivos como um plano de carreira)? Ou, ainda, é uma via de mão dupla?

Alex Alves: Considero que é bem isso mesmo: uma via de mão dupla. Todavia, a responsabilidade maior, a meu ver, é da instituição. Quanto mais servidores capacitados e bem treinados, melhores serão os resultados institucionais. Os servidores podem e devem pressionar para que sejam oferecidas condições de aprimoramento, mas entendo que a iniciativa deve partir da instituição. Se o servidor buscar aprimoramento e perceber resistência por parte do órgão, fatalmente se sentirá desmotivado. No entanto, é preciso comprometimento e vontade de melhorar por parte dos servidores. Não adianta a instituição oferecer cursos periodicamente e o número de matrículas ser sempre pequeno. Um trabalho prévio de pesquisa sobre os anseios dos servidores é uma boa alternativa para o sucesso de um trabalho conjunto entre órgão e servidores nesse sentido. O sindicato também é um poderoso instrumento de mobilização para dialogar com os dirigentes dos órgãos a respeito dos verdadeiros desejos dos servidores em termos de aprimoramento profissional.

 

RS: Para os que querem seguir a carreira pública, o que você ressaltaria de importante no preparo para concursos e mesmo para a função que ele deseja exercer?

Alex Alves: Primeiramente, vontade. E não somente a vontade de ser bem sucedido, ganhar um bom salário, possuir estabilidade e uma carreira estruturada. Essa vontade também é válida e importante, claro. Mas há de se pensar além. Há de se ter a vontade de servir ao público, de deixar uma contribuição positiva para a sociedade, de pensar para o Estado a aplicação das políticas públicas. É importante ter consciência de que cada atividade desempenhada pelos diversos cargos públicos possui uma importância social muito grande. Resumindo, é preciso ter vontade de servir ao público. Por isso, não raro, os bons servidores são também síndicos de prédio, presidentes de associação, membros atuantes de partidos políticos, etc. São pessoas que, em geral, têm uma preocupação com a coletividade e com o próximo.

 

RS: E para os “concurseiros”?

Alex Alves: Para o preparo para o concurso em si, recomendo duas linhas a serem seguidas: primeiro, uma disciplina de estudos sobre temas referentes à administração pública em geral, como Direito, Contabilidade, Economia, Ciência Política, Administração e Comunicação. Basta observar qualquer edital recente para ver que as exigências são cada vez mais abrangentes. Concursos disputados cobram um conhecimento cada vez mais amplo e multidisciplinar, ao mesmo tempo em que exigem domínio de algum tema específico. Ler 20 páginas por dia de uma boa obra referente a cada um desses temas vai ajudar tanto no preparo para os concursos como na rotina do futuro servidor. A segunda linha é a específica para o cargo desejado: coletar informações sobre o cargo, qual o papel de sua atividade dentro do contexto da administração pública, tentar visitar ou estagiar no órgão para conhecer a realidade da função, enfim, se familiarizar. Após esse contato, é necessário ter uma idéia da periodicidade dos concursos para o cargo, procurar localizar os últimos editais e tentar ler, em pelo menos 30 minutos diários, informações sobre o órgão e a legislação aplicada ao cargo. Seguindo essas duas linhas, a do estudo teórico mais abrangente e a da pesquisa sobre o órgão e a legislação mais aplicada ao cargo, o êxito estará muito mais próximo de ser alcançado, tanto no concurso como na vida profissional do futuro servidor.

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